segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Presídio que teve detentos decapitados é disputado por 4 facções no MA

     São Luís, no Maranhão, deixou há três anos de ser um local em que traficantes isolados negociavam drogas para se tornar território de disputa de facções apoiadas por organizações criminosas de São Paulo e do Rio.
     O resultado da guerra entre os grupos PCM (Primeiro Comando do Maranhão) e Bonde dos 40 é um rastro de mortes nas ruas e dentro do presídio de Pedrinhas, o maior do Estado, onde 62 presos morreram desde 2013. Infraestrutura frágil, falta de agentes de segurança e de investimento público completam o cenário da escalada de violência no Estado.


Marlene Bergamo-06.jan.14/Folhapress

Detentos do presídio de Pedrinhas vivem em meio a guerra de facções


     O PCC paulista e o Comando Vermelho no Rio atuam indiretamente no Maranhão. Exportam drogas, armas e experiência aos "parceiros comerciais" PCM e Bonde.
     "Esses grupos de São Paulo e do Rio fazem uma espécie de convênio: 'Quem fornece a droga para vocês [facção local] sou eu'", diz o sub-delegado-geral do Maranhão, Marcos Afonso Júnior. "E com isso vem o armamento e o know-how, a experiência que eles têm no Sudeste".
     Mais antigo e numeroso, o PCM é formado por presos transferidos do interior para Pedrinhas. Dominam o tráfico fora da capital e em parte da região metropolitana.
     A facção começou a surgir há dez anos, mas se consolidou há cerca de três anos. Copiou o nome do "padrinho" PCC, de quem recebe a droga que distribui no Maranhão.
     Os primeiros contatos com a facção paulista ocorreram dentro da própria casa. É que em 2003 e 2004 chegaram a Pedrinhas assaltantes oriundos do Sudeste, flagrados em roubos no Maranhão.
     Esse intercâmbio do crime permitiu aos presos maranhenses entenderem como se organizava o tráfico paulista.
     A rixa capital versus interior acelerou a formação do PCM. Relato de agentes, presos e policiais à Folha revelam que detentos de outras cidades eram humilhados e tinham pertences roubados ao chegar a Pedrinhas.
     Há dez anos, um detento decidiu romper a "tradição". Moisés Magno Rodrigues, o Saddam, chegou da cidade de Pinheiro, terra natal do ex-presidente José Sarney.
     Rebelou-se contra os colegas da capital e evitou ser roubado. Depois mobilizou presos do interior para que também se protegessem. Hoje detido em presídio federal, é apontado como um dos líderes do PCM.

DISSIDÊNCIA E BARBÁRIE

     Foi apenas em 2010 e 2011, quando detentos maranhenses foram transferidos para presídios federais, que o crime passou a se organizar de fato em São Luís.
     Nessas penitenciárias de segurança máxima, líderes do PCM tiveram contato próximo com os do PCC. Da mesma forma, presos de São Luís ainda sem facção conheceram nos presídios federais o modus operandi do CV.
     De volta ao Maranhão, chefes dos dois grupos difundiram a ideia de que era preciso dominar os pontos de tráfico em São Luís.
     Há três anos, bandidos de São Luís, com apoio de egressos de presídios federais, reuniram-se para se opor ao PCM e formar o Bonde dos 40.
     Líderes do Bonde foram os primeiros a intimidar traficantes de bairro da capital maranhense, disseminando medo. A ordem era obedecer ou sofrer represália –leia-se morte. A facção domina hoje boa parte da região metropolitana.
     A maioria das decapitações nos motins, com centenas de facadas nas vítimas, são atribuídas a membros do Bonde.
     Pedrinhas também abriga outros dois grupos menores: Anjos da Morte e Mensageiros do Inferno. E são os Anjos os mais temidos pela selvageria nas execuções.
     Enquanto o Bonde decapita e esfaqueia, membros dos Anjos terminam por esquartejar a vítima. Há relatos até de canibalismo: em motim em dezembro, teriam comido o fígado de um dos mortos.
     Um ex-preso, testemunha de rebelião em outubro em Pedrinhas, confirma a crueldade dos Anjos e do Bonde.
     "Esse senhor estava sentado com a Bíblia na mão quando pegaram ele. Morreu com 40 perfurações. Desfiguraram o rosto. Abriram o peito e tiraram o coração, cortaram braços e pernas".
     A testemunha, que pediu para não ter o nome divulgado, resumiu a fragilidade física do presídio que, somada à permissividade na entrada de armas, fomenta o conflito: "Enquanto tiver uma parede podre separando as duas facções, essa guerra não acaba."

FONTE: FOLHA DE S.PAULO

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